sábado, 22 de maio de 2010

Porque morar sozinha não é como brincar de casinha

Quando eu vim morar sozinha, meu melhor argumento era: "eu tive infância, eu sei brincar de casinha". Mas quando a gente cai na real, a vida fantástica fica muito mais sem graça.
Quando eu brincava de boneca eu não lembro de ver a minha Barbie lavando roupas na pia do banheiro. E nem lembro de ter um varal na sacada, muito menos que o tempo fechava na hora de estendê-las.
Nunca vi minha Barbie sujando a roupa na hora de sair de casa com café ou pasta de dente. Ela nem escovava os dentes nem comia de manhã, correndo o risco de se atrasar por conta de roupas manchadas. E mais: ela nunca se atrasava.
Na casa da minha Barbie nunca acabava a luz nem o gás. Ela não precisava varrer o chão, passar pano, tirar o lixo ou limpar os vidros. Não lembro de vê-la lavando o vaso sanitário ou tirando os sapatos para entrar em casa. E ela também não pagava aluguel!
A minha Barbie certamente não viu a comida estragar na geladeira ou uma infiltração na parede. Aposto como ela nunca precisou fazer compras do mês e carregar as coisas nas costas feito um camelo. Ela não tinha que recolher os cabelos no ralo nem precisou tomar banho frio por falta de energia. Eu sei que ela nunca desentupiu a pia...
No fim das contas a maior administradora domiciliar, chamada dona-de-casa, de todos os tempos, nunca suou ou estragou as unhas ao cuidar da casa. Por isso eu digo que morar sozinha não é como brincar de casinha: há muito mais surpresas, emoções e gasto de energia.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Últimos dias de pensão


Nestes últimos dias de pensão, comecei a refletir sobre os três meses que passei aqui e como, de certa forma, consegui sobreviver com saúde e sairei daqui inteira. Longe de dizer que é horrível morar aqui, com uma aventura por dia fica difícil não registrar algumas coisas que, provavelmente (esperançosamente!), não mais farão parte do meu dia-a-dia.
A primeira coisa que me lembro de citar, pois foi a primeira coisa que constatei quando cheguei aqui, é o chuveiro. Ele tem duas chaves: a de super inverno e uma de super verão. Sim, foi difícil tomar banho frio ou muito quente nos dias que mereciam os mornos. E é só quando o frio fica absurdo ou o calor me derrete é que eu me lembro de agradecer pelo chuveiro tão extremo do meu quarto. E também nas situações de emergência culinária, quando a cozinha está ocupada e a fome não espera nem mais um minuto. Foi esse chuveiro que me deu água quente o bastante para cozinhar um miojo sem fogo e passar café (mas não ficou bom). Apesar de toda a gratidão reservada apenas para os dias que me convém, desse adorável chuveiro eu não sentirei falta.
Também não sentirei falta de pedir delivery e ter que esperar lá fora para não atrapalhar os vizinhos com a campainha. Na realidade, eu ouvi a campainha uma vez e achei ela muito feia; tomei para minha vida que eu não seria culpada pela execução daquele som totalmente repugnante. Porém, para a alegria geral da nação, os motoqueiros sempre buzinam em frente ao portão antes de conferir se alguém, silenciosamente, já está a sua espera. Quem sabe eu tenha causado grande desconforto, sobretudo aos colegas dos quartos da frente, mais do que se tivesse deixado que tocassem a bendita campainha. Mas tomara que eles não me odeiem; no fim, eu já vou embora mesmo!
Não vou sentir falta de tentar lavar roupas em um dia de céu azul e sol, quando todos decidem lavar roupa ao mesmo tempo. Eu não só perco qualquer chance de conquistar um mísero centímetro de varal como, além de tudo, SEMPRE perco um grampo ou dois. O pior de tudo é quando as roupas ficam jogadas (isso quando não caem ao chão), e algumas partes não secam, impossibilitando seu uso. Pior do que isso é querer utilizar a máquina quando alguém colocou roupas de molho e esqueceu de pendurá-las. Resta-me a pia do banheiro para lavar minhas roupas, à mão.
Sem contar os dias de encontros sociais inesperados à uma da manhã e aqueles em que resolveram tomar da minha água pois estava gelada, e também esquecendo tudo o que citei acima, eu gostei de morar aqui. Nesses últimos dias de pensão, declaro abertamente que vou sentir falta sim, e que guardo comigo mil histórias para contar.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Sem título (por opção)

Frio,
dor de quem se fecha
derrotado
sem mais querer.

E tudo parece sombra
ilusão de óptica;
nada convence
ou alegra o coração.

Mas
Eis que vem o tempo
e surge a flor no meio do deserto.

E tudo vira luz
Vira paz
Vira amor.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Hoje eu me permito


Hoje, eu me permito desejar. Permito-me querer o melhor para a minha vida e para as pessoas ao meu redor. Permito-me, sim, dizer tudo aquilo que me der vontade, sem pedir desculpas de antemão. Eu não me permito transformar minha fala em uma simples conveniência, com medo de ser julgada pelos olhares alheios. Não, hoje não.
Hoje me permito ser, aquilo que sou independente da opinião pública. Previno-me de desagradar por arrogância mas, sinceramente, hei de ser "Thaís" por completo: a amiga, a amante, desleixada, risonha, pouco prática e amedrontada pelo escuro. Permito-me ser apaixonada além dos limites estabelecidos por essa tal de sociedade, questionar o certo e o errado e aceitá-los como simples convenções.
Hoje me permito transformar a vida em algo muito mais simples do que parece ser. Permito-me enchê-la de música, flores e sorrisos; e porque não de chocolates, novas amizades e bobagens de quinta série? Permito-me amar e ser amada, independente da hora ou da circunstância. Permito-me sorrir à Deus e cantar alto pelas ruas a minha alegria.
Hoje eu me permito ultrapassar todos os muros à frente. Permito-me, sobretudo, transpor as montanhas dentro de mim, todos os preconceitos e pecados do passado. Permito-me desintegrar-me e, peça por peça, montar aos poucos o quebra-cabeça chamado "Eu". E permito-me usar o tempo que for preciso, admirando a paisagem no caminho, dando a mão aqueles que quiserem ajudar-me a chegar ao meu destino.

Seria tudo isso uma utopia, uma grande insanidade?

Prefiro chamá-la "busca da felicidade".

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Um fim de semana comigo mesma

São Paulo, adorável cidade! Somente
ela para me acolher em um fim de semana de muito sol no qual, sozinha, decidi explorar a cidade. Na realidade, resolvi explorar os lugares que eu sabia como chegar e que, infelizmente, ainda não conhecia.
Ao sair do meu querido Butantã, no Anhangabau lotado, ao meio-dia de sábado, ainda não sabia ao certo aonde iria. Desci na Consolação, como já fiz milhões de vezes, e comecei a andar vagarosamente na Avenida Paulista. Ela parecia mais bela, brilhante e divertida do que em todos os outros dias em que ela me recebeu. Olhei as pessoas apressadas, as pessoas sem pressa; os "skaters", os mendigos, os vendedores de água e refrigerante. As bancas de jornais, os shoppings, as patricinhas e os estrangeiros. Vi os sinais que abriam e fechavam sem que eu, descontroladamente, precisasse correr para pegá-los abertos.
Já havia andado um pouco quando decidi entrar em um shopping; eu lembrava de ter passado por ali antes mas nunca havia prestado muita atenção nele. Ele era pequeno, apertado e escuro, apesar da infinidade de restaurantes e a quantidade de andares que ele tinha. Todos comiam frango grelhado com salada, e foi assim que descobri que ali não era o meu lugar. Depois de um momento de claustrofobia, saí daquela caixa e voltei à minha belíssima Avenida.
Andei, andei, andei. Eu queria muito fazer algo de interessante. Foi então que eu vi o MASP: aquele imenso monumento à céu aberto, onde as pessoas se libertam artisticamente. Minha primeira reação foi uma gargalhada boa e alta, eu mal podia me conter ao ver todas aquelas pessoas dançando e pulando (e filmando!) tão espontaneamente. A segunda, foi de respirar fundo e comprar o ingresso para entrar no museu e ver a exposição sobre o Romantismo. Poderia ficar horas falando da exposição, mas prefiro resumi-la em poucas palavras: apaixonei-me por Modigliani e pela exposição permanente de obras clássicas. E foi então que eu saí do museu, sentindo-me pouco culta por não desejar apreciar as obras de Max Ernst.
Caminhei e, um pouco mais à frente, entrei em um outro shopping. À minha esquerda: STARBUCKS! Não podia perder a chance de pedir meu primeiro Grande Caramel Mochiatto no Brasil. Lembrei-me de Clarice Lispector no conto "Felicidade Clandestina", no qual ela tinha o "Reinações de Narizinho" como o seu mais secreto amante; no meu caso, era um Grande Caramel Mochiatto.
Quando o meu momento de epifania acabou fui, com meu copo vazio, até a FNAC. Eu sabia que ela era gigantesca, mas aquele universo de livros era simplesmente demais para mim. Passei horas lendo títulos de livros que não me interessavam até chegar na literatura brasileira. Ah, sim! Estava em casa: Drummond simplesmente saltou aos meus olhos, da prateleira aos meus braços; e era tudo o que eu precisava. Já na fila do caixa ainda apanhei "Forrest Gump" e uma super sacola retornável da FNAC. Meu dia estava completo.
Voltando na Avenida Paulista até a Consolação, enquanto o sol já se punha, achei as pessoas muito estranhas. Fechei o meu sorriso ao mundo e, apressadamente, cheguei ao ponto do ônibus. Meu erro: peguei o Butantã-USP. No meio do caminho, depois do Eldorado, lembrei-me que aquele dia não só era um sábado como também um feriado. Tristemente, andei do Portão 1 até a Vila Indiana, fazendo jus ao meu epípeto de forasteira. Sem contar o medo de andar naquela Cidade Universitária deserta; parecia-me Raccoon City, do Resident Evil.
Depois dessa adversidade, fui até a Universitária, comi um costumeiro Bauru e suco de laranja. Transtornada por ter comido tanto, comprei um bolo de chocolate e pretendia assistir ao filme que comprei; ainda havia esperança para aquele fim de semana. Ao chegar em casa o filme não rodava e eu fiquei, como diria meu tio, "desenchavida". De súbito, tudo perdeu a graça e eu estava ali sozinha, em casa, distante de todos os meus amigos a da possibilidade de fazer algo de divertido em grupo. Deitei-me e dormi; o domingo havia de ser melhor.

Acordei acreditando que a missa era às 10h e, ao chegar na Capela São João Batista, descobri que era às 9:30h. Ainda deu tempo de pegar a homilia e todos os avisos paroquiais (que não foram poucos). Onze e meia eu decidi que não ficaria em casa, que o dia estava muito lindo para eu me deprimir. Fui então ao Shopping Eldorado: eu sempre passava por lá mas nunca havia descido do ônibus naquela estação. É um belíssimo shopping e descobri que as pessoas realmente tinham muita razão de gostar de ir lá. Comi comida japonesa (uma delícia!) depois de passar na PB Kids e comprar meu tão sonhado quebra-cabeça de mil peças, e logo descobri que ali havia um Carrefour! Fiquei muito feliz pois há tempos precisava fazer compras para a minha casa. Comprei toalhas de banho, talheres novos e até algumas comidas. Na volta, ao esperar o ônibus, havia uma senhora ao meu lado me olhando com uma cara muito ortodoxa (aos que me conhecem, seria algo similar à uma cara de xícara). Eu virei para ela e disse: "moça solteira não faz chá de panela, né?". Ela não riu e eu me arrependi de ter falado com ela. E ela pegou o mesmo ônibus que eu.
Cheguei em casa feliz e joguei tudo sobre a cama, apressando-me a abrir o quebra-cabeça. Abri, comecei a separar as partes mas, depois de um tempo, fui me cansando; elas eram tantas e tão pequenas! Devia haver alguma metodologia, que eu desconhecia, para montá-lo. E foi tentando desvendar isso que terminei o meu fabuloso fim de semana com Sausurre. Às 20h eu estava dormindo.

Lição de moral: um dia consigo é bom, dois dias é demais.


sábado, 1 de maio de 2010

A arte de viver um sonho




Sim, esta é a vista da minha janela. Todas as vezes que olho através dela, especialmente quando a lua tão gentilmente se expõe assim, sinto-me muito abençoada e grata. Outras vezes eu sinto frio, e fecho a janela para não sentir o vento. Mas, ainda assim, é muito bom estar aqui.
São Paulo é uma cidade muito agitada, congestionada, poluída e populosa. E é o lugar onde eu gosto de estar de segunda à segunda. É aqui que meus sonhos se escondem, atrás de cada árvore e de cada rosto amigo, de cada prédio e carro desgovernado, de cada ônibus lotado e metrô estragado.
Graças a pessoas muito importantes na minha vida que eu estou aqui. Desde aqueles que plantaram a semente desse sonho até aqueles que a regaram com o passar do tempo. Também aqueles que não acreditaram que meu sonho floresceria, que me perguntavam: "de quem é esse sonho afinal?". Todos eles permitiram que eu pudesse colher os frutos da paciência e dedicação, na certeza de que esse sonho é todo meu.
É aqui que eu reconheço o meu esforço e sinto que tudo valeu e vale a pena. É aqui que eu vejo o quanto a vida é muito mais do que simplesmente acordar, ir para a aula e dormir. Foi aqui que aprendi a diferença entre chorar por ter quebrado a unha e chorar por estar a 400 quilômetros de casa. E foi aqui também que aprendi que nada é fácil.
Mas aqui, acima de tudo, eu aprendi que tudo está ao meu alcance.

É possível ser feliz

É possível ser feliz

Quando se perde o trem
Quando não há ninguém
Quando se deixa alguém

Quando se entristece
Quando se empobrece
Quando alguém o esquece

Quando se tem insônia
Quando se apaixona
Quando alguém o magoa

Só não é possível ser feliz

Quando se mente
e quando a gente
mente para ser feliz.