quinta-feira, 13 de maio de 2010

Últimos dias de pensão


Nestes últimos dias de pensão, comecei a refletir sobre os três meses que passei aqui e como, de certa forma, consegui sobreviver com saúde e sairei daqui inteira. Longe de dizer que é horrível morar aqui, com uma aventura por dia fica difícil não registrar algumas coisas que, provavelmente (esperançosamente!), não mais farão parte do meu dia-a-dia.
A primeira coisa que me lembro de citar, pois foi a primeira coisa que constatei quando cheguei aqui, é o chuveiro. Ele tem duas chaves: a de super inverno e uma de super verão. Sim, foi difícil tomar banho frio ou muito quente nos dias que mereciam os mornos. E é só quando o frio fica absurdo ou o calor me derrete é que eu me lembro de agradecer pelo chuveiro tão extremo do meu quarto. E também nas situações de emergência culinária, quando a cozinha está ocupada e a fome não espera nem mais um minuto. Foi esse chuveiro que me deu água quente o bastante para cozinhar um miojo sem fogo e passar café (mas não ficou bom). Apesar de toda a gratidão reservada apenas para os dias que me convém, desse adorável chuveiro eu não sentirei falta.
Também não sentirei falta de pedir delivery e ter que esperar lá fora para não atrapalhar os vizinhos com a campainha. Na realidade, eu ouvi a campainha uma vez e achei ela muito feia; tomei para minha vida que eu não seria culpada pela execução daquele som totalmente repugnante. Porém, para a alegria geral da nação, os motoqueiros sempre buzinam em frente ao portão antes de conferir se alguém, silenciosamente, já está a sua espera. Quem sabe eu tenha causado grande desconforto, sobretudo aos colegas dos quartos da frente, mais do que se tivesse deixado que tocassem a bendita campainha. Mas tomara que eles não me odeiem; no fim, eu já vou embora mesmo!
Não vou sentir falta de tentar lavar roupas em um dia de céu azul e sol, quando todos decidem lavar roupa ao mesmo tempo. Eu não só perco qualquer chance de conquistar um mísero centímetro de varal como, além de tudo, SEMPRE perco um grampo ou dois. O pior de tudo é quando as roupas ficam jogadas (isso quando não caem ao chão), e algumas partes não secam, impossibilitando seu uso. Pior do que isso é querer utilizar a máquina quando alguém colocou roupas de molho e esqueceu de pendurá-las. Resta-me a pia do banheiro para lavar minhas roupas, à mão.
Sem contar os dias de encontros sociais inesperados à uma da manhã e aqueles em que resolveram tomar da minha água pois estava gelada, e também esquecendo tudo o que citei acima, eu gostei de morar aqui. Nesses últimos dias de pensão, declaro abertamente que vou sentir falta sim, e que guardo comigo mil histórias para contar.

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